Na véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, em outubro passado, uma luz amarela acendeu no trânsito da Capital. E não era no semáforo.
Naquela quinta-feira, dia 11, acontecimentos triviais como uma garoa no final da tarde, acidentes sem gravidade e busca pelas rotas de saída de Porto Alegre acarretaram um dos maiores congestionamentos já registrados na cidade – trechos normalmente percorridos em 10 minutos demoraram uma hora para serem concluídos.
O supercongestionamento deu uma mostra do futuro que se avizinha. Entre medidas emergenciais, aplicadas em cidades tomadas pelo mesmo problema e que poderiam amenizar a situação, o rodízio de placas é a que menos agrada especialistas consultados por Zero Hora.
Uma das explicações para as constantes tranqueiras no trânsito é o aumento do número de automóveis. Em média, a cada dia, 55 veículos novos começam a circular na Capital. Nos últimos cinco anos, a frota de veículos saltou de 513 mil, em 2003, para 616 mil, este ano.
– Como o país está crescendo, as pessoas começam a comprar carros. É uma tendência que vai aumentar – alerta Luiz Afonso Senna, diretor-presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).
Cidades européias optaram por pedágios urbanos
Em São Paulo, quando os engarrafamentos já não tinham dia nem horário para acontecer, a prefeitura optou pela implantação de rodízio (restrição da circulação em determinadas horas do dia de acordo com a placa do veículo). Uma década depois, a medida recebe críticas.
– São opções desesperadas, que não exigem planejamento e que normalmente não fazem parte de ações de médio e longo prazo. Os resultados ficam aquém do esperado – avalia o professor da Universidade de São Paulo (USP) Hugo Pietrantonio, que fez pós-doutorado em engenharia de transportes pela Universidadede Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos.
Além da capital paulista, metrópoles como Bogotá, na Colômbia, e Cidade do México utilizam-se de expediente semelhante.
Na opinião do engenheiro Luiz Antonio Lindau, doutor em transporte urbano e professor do Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a restrição pode resultar em aumento da frota.
– Quem pode comprar outro carro, compra. E são carros normalmente mais antigos, mais poluentes e mais perigosos. Com mais carros na garagem, quem não usava pára e pensa: “Por que não usar?” – diz Lindau.
Para o engenheiro, antes do rodízio haveria medidas mais eficientes como a implantação do “pedágio urbano”, como a cobrança de taxas para circular em determinados trechos de cidades européias.
– Em Londres (na Inglaterra) há um valor fixo, mas em Estocolmo (na Suécia), por exemplo, as tarifas variam de acordo com a hora, o dia e a época do ano – detalha Lindau.
Conforme Senna, investimentos em transporte público e melhorias viárias amenizariam congestionamentos na Capital.
carlos.etchichury@zerohora.com.br CARLOS ETCHICHURY
O senhor (a) é a favor ou contra restrições no uso de carros, a fim de se reduzir os congestionamentos?
CARLOS GOMES (PHS)
“Tenho um projeto para reduzir a população de Porto Alegre. Com isso, não teremos problemas de trânsito. Minha idéia é promover a ocupação das casas de veraneio no Litoral o ano inteiro. Isso será possível com uma comunicação rápida por trem entre Porto Alegre e o Litoral. Assim, as pessoas podem viver lá e trabalhar aqui.”
JOSÉ FOGAÇA (PMDB)
“Sou contra. Porto Alegre não precisa adotar essa medida nem para veículos individuais ou caminhões. Queremos fazer investimentos para qualificar o transporte coletivo, como a implantação dos Portais da Cidade e do metrô, a partir de uma articulação com o governo federal. Vamos trabalhar para garantir maior eficiência no sistema viário com um conjunto de 15 obras para a cidade, como ciclovias e passagens subterrâneas.”
LUCIANA GENRO (PSOL)
“Não é necessário ainda. Talvez se chegue a um momento extremo, mas pretendo, como prefeita, trabalhar para evitar que se chegue a essa situação. Investindo na ciclovia e na melhora do transporte coletivo e lutando para trazer o metrô, a gente pode evitar essa situação de caos em que seria necessário o rodízio. Isso seria a falência das outras medidas. Se não forem tomadas medidas, vai se chegar a esse ponto.”
MANUELA D’ÁVILA (PC DO B)
“Vou disciplinar o tráfego de caminhões pesados no Centro limitando horários para carga e descarga. A circulação de carros-fortes na região será disciplinada, por razões de segurança e de trânsito. Ainda no Centro, vamos favorecer a circulação dos ônibus e racionalizar o uso de terminais. E vamos ampliar e integrar o sistema de transporte coletivo.”
MARIA DO ROSÁRIO (PT)
“Neste momento, sou contra. Acho que temos de estudar outras alternativas, principalmente para o centro da cidade. Uma possibilidade são garagens subterrâneas construídas com licitação e participação da iniciativa privada.”
NELSON MARCHEZAN JR. (PSDB)
“Sou contra. Tem muitas outras coisas que a prefeitura pode mudar na sua gestão, para melhorar isso, antes de afetar tanto a vida do cidadão. A médio e longo prazo, iria piorar, porque isso estimularia o indivíduo a ter mais veículos.”
ONYX LORENZONI (DEM)
“É tirar o sofá da sala. Proponho dois eixos ligando o norte e o sul da cidade, para a redistribuição do trânsito. Podem ser feitos com recursos do município e com parceria e concessão. Aí tens que aliar um conjunto de obras para construir sete ou oito viadutos. E qualificar o transporte público, para estimular seu uso e desestimular o uso do veículo.”
VERA GUASSO (PSTU)
“Nós achamos que Porto Alegre ainda não está nessa condição. E para não chegar à condição de restrição é preciso melhorar o transporte coletivo, investir no metrô e um conjunto de medidas para não precisar restringir o número de automóveis. O ponto é transporte coletivo mais barato, mais linhas e municipalização.”