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19/06/2017

A suposta influência do Proálcool nos persistentes altos níveis de Ozônio em São Paulo

Artigos / Entrevistas

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18/06/2017 12:00 - Olimpio Alvares


Má notícia! Material particulado ultrafino cancerígeno (MP) e Ozônio (O3) aumentaram na atmosfera de São Paulo, segundo recente estudo científico apoiado pela Fapesp. Veja:

http://agencia.fapesp.br/_grande_sp_precisa_controlar_a_emissao_dos_veiculos_a

_diesel/25482/

Além do MP, cujo risco de aumento expressivo dos índices de morbi-mortalidade por doenças cardiorrespiratórias não é exatamente uma novidade, o estudo aponta um outro evidente e grave risco à saúde pública na terra das jabuticabas: os altos níveis de O3 persistem, em que pesem os programas de controle de emissões de veículos novos e de combustíveis alternativos.

A presença na atmosfera de substâncias como os aldeídos e o etanol não queimado, devido ao uso automotivo do álcool em larga escala - adicionado à nossa gasolina, e no estado puro nos veículos flex - pode ser uma provável causa da persistência histórica das altas concentrações do ozônio na atmosfera da área metropolitana de São Paulo, ao contrário do que tem sido sugerido há décadas na defesa da política nacional de uso desse biocombustível.

Outras cidades do mundo que não usam biocombustíveis em larga escala, como Los Angeles e a própria Cidade do México, conseguiram reduzir o ozônio desde a adoção dos catalisadores nos veículos leves no início da década dos anos noventa. Trata-se, porém, de um complexo fenômeno fotoquímico relacionado com fatores locais conjunturais, climáticos e meteorológicos, o que torna imprópria a comparação do caso de São Paulo com qualquer outra cidade do planeta; mas a queda gradual do O3 nessas cidades, não deixa de ser um indício a ser registrado.

Refiro-me, entretanto, ao surpreendente estudo publicado na Revista Nature de pesquisadores de Londres e Illinois, Alberto Salvo e Franz Geiger, que analisa a serie histórica dos níveis de ozônio na área metropolitana de São Paulo, cotejada com a serie histórica do consumo relativo de gasolina/etanol na região ao longo dos últimos anos. O estudo levanta indícios preocupantes sobre uso de biocombustíveis em larga escala, dada a suposta influência positiva e relevante na formação do ozônio.

Os defensores do etanol combustível e os organismos ambientais e de saúde pública brasileiros deveriam preocupar-se seriamente em patrocinar um estudo profundo para tentar provar que esses pesquisadores estariam supostamente equivocados. Enquanto não o fazem, a ciência oficial seguirá apontando o suposto equívoco ambiental numa das principais políticas públicas do tipo "jabuticaba" do País: o Proálcool.

A única ação (passiva) observada até este momento, da parte dos representantes dos produtores de etanol, especialistas e autoridades oficiais, tem sido a simples negação dos graves indícios e a reiterada acusação pública, carente de fundamentação, da suposta incompetência dos pesquisadores. Falta, portanto, numa situação de tamanha relevância para a saúde de dezenas de milhões de brasileiros que habitam as grandes metrópoles, uma justificativa científica plausível e consistente, à altura do estudo da Nature.

Na opinião de alguns cientistas da área das ciências atmosféricas, brasileiros e internacionais, com quem já tive a oportunidade de debater o tema e o estudo da Revista Nature, a metodologia usada parece ser consistente e sinaliza algo bastante preocupante para as populações de grandes cidades brasileiras.

Assim, já passa da hora de a comunidade técnica ambiental no Brasil, em parceria com os produtores de etanol, a indústria automotiva e o setor acadêmico, tirarem a cabeça de avestruz da terra e proporem um estudo cientifico de alto nível para investigar o reportado fenômeno da redução expressiva dos níveis de ozônio, proporcional ao aumento relativo do consumo de gasolina em relação ao etanol, conforme ocorrido nos últimos anos, quando houve uma inversão no padrão de consumo do etanol em função do preço congelado da gasolina.

Um eventual saudável contraponto ao estudo da Revista Nature, seria o mínimo que os setores ambiental, saúde, automotivo e dos produtores de etanol poderiam produzir, diante desse delicado momento crucial, onde o novo Regime Automotivo (Rota 2030) está na iminência de inundar as ruas brasileiras com incentivos fiscais aos veículos flex movidos predominantemente a etanol hidratado.

O polêmico estudo da Nature é citado aqui:

https://news.northwestern.edu/stories/2014/04/ozone-levels-drop-20-percent-with-switch-from-ethanol-to-gasoline

Olimpio Alvares é Diretor da L'Avis Eco-Service, especialista em transporte sustentável, inspeção técnica e emissões veiculares; concebeu o Projeto do Transporte Sustentável do Estado de São Paulo, o Programa de Inspeção Veicular e o Programa Nacional de Controle de Ruído de Veículos; fundador e Secretário Executivo da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos - ANTP; Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades - SOBRATT; consultor do Banco Mundial, da Comissão Andina de Fomento - CAF e do Sindicato dos Transportadores de Passageiros do Estado de São Paulo - SPUrbanuss; é membro titular do Comitê de Mudança do Clima da Prefeitura de São Paulo; colaborador do Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama, Instituto Saúde e Sustentabilidade, Instituto Mobilize, Clean Air Institute, World Resources Institute - WRI-Cidades, Climate and Clean Air Coalition - CCAC, do International Council on Clean Transportation - ICCT e do Ministério Público Federal; é ex-gerente da área de controle de emissões veiculares da Cetesb, onde atuou por 26 anos; faz parte da coordenação da Semana da Virada da Mobilidade.

 

Por ANTP - Olimpio Alvares **

 

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