Numa sociedade complexa como a atual, sempre que alguém manifesta uma necessidade, surge alguém para satisfazê-lo.
Por sua vez, as instituições demoram a reconhecê-la.
Daí que muitas atividades, numa cidade como Belo Horizonte, por exemplo, são exercidas à margem da lei, criando problemas para a coletividade e os poderes públicos.
Não obstante o aumento veloz da frota de veículos e, em conseqüência, a ocupação crescente do espaço urbano, gerando um novo profissional, o poder público ainda não conseguiu definir sua utilidade e atribuições para reconhecê-lo. Na capital, a lei reconhece o lavador de carros, mas não a de guardador, que é a atividade que hoje predomina.
Daí que, tirante os que, de fato, vivem de lavar carros, os demais exercem uma atividade que não é reconhecida, portanto ilegal. cometendo toda a sorte de irregularidades, a começar desse desvio de função. Os "flanelinhas", como são chamados, cobram "por fora", apropriam-se do espaço público, manobram automóveis sem terem habilitação e cometem outras faltas.
Oficialmente, os profissionais habilitados pela prefeitura só poderiam cobrar dos proprietários pela limpeza dos veículos. Qualquer outro serviço que prestassem, como a guarda, só poderia ser remunerado com uma gratificação. O proprietário, por sua vez, teria direito à vaga e à segurança mediante o pagamento pelo uso do espaço durante um certo tempo.
Tal não acontece, no entanto, e por isso as autoridades do trânsito e policial estão fechando o cerco em cima dos "flanelinhas" irregulares. Em apenas um dia, vários foram presos. A cidade não tem idéia de quantos são (os habilitados são 1.650).
Por causa de sua atividade, o município perde receita e proprietários de veículos, de uma forma ou de outra, são extorquidos.
"Flanelinhas" e outras formas de subemprego são o ônus de uma sociedade mal desenvolvida e na qual subsistem atividades informais, sem regras e sem leis.